CidadeTAL MÃE TEA FILHAúltimas

Pão pra quem tem fome…. COME?

Nem sempre. Não é a realidade que vivo. São tantas camadas, que você não consegue enxergar daí. A fome bate, mas como sacia-la se nada aqui oferecido, é aceito? Não é fase, ou birra. Não aponte o dedo pra mim se você não sabe por quantas frustações passei e esperanças de um prato de comida feito, ser jogado ao chão trazendo uma avalanche de sentimentos que nem mesmo ela entende. São porções de causas ainda não descobertas. Por que dói experimentar? Dói oferecer e receber a recusa. Tenho aqui o pão para quem tem fome, mas ela não come.

São noites de estudos para que seja possível entender e explicar para quem já deveria saber, a melhor maneira de ofertar sem que isso a desrregule. São inúmeras reuniões com professores, coordenadores e diretores. A escola me parece tentar se mostrar parceira, vejo portas abertas mas também encontro a resistência de abrir mão do antigo e aprender o novo. Espera um pouco, eu também estou tentando lidar com o novo aqui. Há uma recusa, até mesmo de se cumprir o óbvio. Será que tenho que ficar dando uma aula de Direito e explicando que projeto se discute, mas lei se cumpre?

O autismo não é um transtorno somente da criança, é uma condição da família. Da família que fica. O diagnóstico é dado a todos que ficam. O autismo está na mãe que não se preparou para ser uma mãe atípica. Ela não poderia nem imaginar, que ao gestar a sua filha enfrentaria salas de esperas, seja de exames ou terapias. Ela não se preparou. Viu que a sua filha se desenvolvia dentro do esperado e de repente a Poda Neuronal levou tudo ao chão e você descobriu que algo ali mudaria a sua vida para sempre. E a mãe? Alguém olha por ela? Mesmo fraca, em pedaços, não se deu por vencida. Ela que até antes era mãe de uma pequena em desenvolvimento, se viu sentada diante de pessoas estranhas entregando, algo que poderia até parecer uma sentença. O autismo não é bonitinho, ele dói. Dói nela, dói em mim. Dó em quem fica.

O dia 2 de Abril é significativo para o mundo autista. Dia mundial da conscientização do Autismo. A mesma conscientização que enxergo apenas nos que cuidam ou convivem com um autista. Dos que enxergam a dor da mãe escorrer pelos olhos toda vez que desaba por ter que carregar uma carga emocional reprimida, enquanto precisa ir à luta nas ruas. Essa mesma rua que condena por você não saber educar o filho que grita, essa rua que é preconceituosa por ver meu filho tão crescido e ainda agir de forma tão infantilizada e grudada na barra a minha saia. Este parágrafo não é sobre ruas.

Meu intuito em escrever essas linhas, e outras tantas que já escrevi, sempre foi apresentar a vocês, que as mães atípicas se entendem, mas isso não me parece o suficiente. O que para você é apenas um detalhe, pra gente… O milagre. São dias cansativos de rotinas intensas, e ainda preciso parar e deixar isso para amanhã. Hoje não dá, tem terapia.

O milagre de ver desenvolver tarefas simples, mas que nos custaram horas de sala de espera. Ver o meu milagre falar, e conseguir me contar que na escola brincou com os amigo. Eu choro sempre que ela me fala o que fez na escola. Sonhei tanto com este dia. Ver que seu filho não tem mais medo da água, de correr, de fazer amigos. Vivemos cada dia a espera do milagre, e comemoramos sim, porquê vemos ali uma vitória. Vocês talvez não entendam, mas a cada palavra escrita aqui, apresento a vocês, o meu milagre.

O milagre custa caro, mas não estou falando de preço, estou falando das escolhas que fazemos, das coisas que deixamos. Então eu te pergunto… Com quantos paus se faz uma canoa? Eu não sei. Mas muitas vezes a mãe atípica não tem a madeira, nem pregos, martelo e nem conhecimento para construir uma, mas é capaz de aprender e se virar só para colocar o pouco que ainda lhe resta e seguir. Pedir neste dia um pouco mais de consciência sobre o Autismo, em relação aos nossos filhos e suas condições, não me basta e não deveria bastar para vocês também.

Encontro conscientização lá em cima onde o poder de tirar e dar, escolhe tirar e ver implorar por um pouco de misericórdia? É vergonhoso ver o quanto é capaz um senhorio arrancar-lhe as pernas, te vender a muleta e ainda querer que você agradeça, pois graças a ele, você consegue andar.

E graças a nós, senhorio, não desistimos. Aprendemos a andar, mesmo na dificuldade, com os obstáculos, as puxadas de tapete, e tantos outros percalços que ousarem aparecer. Não estamos aqui para sermos reconhecidas apenas por levantarmos uma bandeira. Estamos aqui, porque graças a nós, nossos filhos um dia poderão estar onde quiserem. Para a minha filha TEA, um dia ela entenderá que escolhi seguir o caminho ao lado dela e não foi importante o que me disseram, porque esse não era o caminho deles… Mas sim, o nosso.

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