Terça-feira, Maio 19, 2026
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Quem cuida de quem cuida?

Por Jéssica Sillva | Instagram: @eujessicasillva

Me dei conta de o quanto a sala de espera me faz reflexiva. São mundos completamente diferentes que se encontraram com o mesmo objetivo. Hoje, enquanto esperava, na sala de espera, refleti sobre possíveis batalhas que cada mãe enfrentou, e enfrenta para que pudesse estar ali, esperando. Observei cada mãe que me acompanhava naquela sala e vi rostos que refletem um cansaço expressivo, e às vezes até de alívio toda vez que a sua criança entra em mais uma terapia. Sorrio só de lembrar o quanto somos parecidas a cada troca de terapeuta, eles voltam, nos abraçam e sorrimos, mesmo cansadas, perguntamos como foi hoje?

Ali, assim como eu enxergo pra mim, vejo um momento de descanso para elas. Me proibi de levar serviço para a sala de espera. Prometi para mim mesma, que este momento seria de solitude. Solitude é um estado de estar sozinho de forma intencional e desejada, que pode ser utilizado para autoconhecimento, introspecção e descanso mental. E o que mais precisamos, é de uma pausa, principalmente mental.  Vejo isso como uma experiência positiva, afinal de negatividade mantenho distância.  Aguardando a psicóloga me chamar para me ouvir, fiquei imaginando se elas tinham alguém para ouvi-las. Será que tem alguém que cuida delas?

Enfrentamos tantos desafios durante o dia, que muitas das vezes são invisíveis e que só nos damos conta, quando esse dia termina, quando deitamos e repassamos na cabeça tudo o que vivemos. Uma vida em um dia. E respiramos aliviadas: “Ufa! Mais um dia”. Fiquei imaginando se a cabeça delas é tão bagunçada quanto a minha. Tem dia que sinto vontade de gritar e mandar eu ficar quieta só por um momento. A minha cabeça não para, sempre pensando, planejando e tentando ganhar discussões que só existem na minha cabeça, mas que parecem tão reais tanto quanto na vida real. É loucura, e um tanto quanto incontestável.

Diante de tantas vidas vividas em um só dia, sempre me questiono, enquanto eu as encaro. Será que aquela mãe, que espera,  conseguiu estender a roupa que está na máquina? Será  que lembrou de mandar o relatório, ou se decidiu o que vai fazer para o jantar? Porquê, por mais que você tenha um pequeno dentro de casa, que tenha seletividade alimentar, você tem outras bocas para alimentar. É pensar, é no agir, é se fazer presente mesmo quando a sua única vontade é sumir, ou apenas deitar para descansar só mais cinco minutos. Nem sempre é o corpo que pede isso, mas a cabeça.

É o excessivo desgaste de sempre estar armada para brigar, exigir que se façam valer o direito e que cumpram os deveres. Tudo isso, muitas vezes, sem uma rede de apoio. Alguém que olhe o seu pequeno só para você conseguir tomar um banho que seja possível lavar o cabelo. Que você tenha tempo de chorar rapidinho enquanto se culpa por achar que não foi uma boa mãe hoje. Ultimamente o meu tempo de chorar está escasso. Sem tempo. Vivemos na era do imediato, do “é para agora”. Mesmo tentando trabalhar isso em nós, quero pra ontem, queremos que seja já. Talvez seja possível ver a ansiedade da falta de ter alguém que cuida, na perna que treme, na cutícula tirada no dente. Trabalho a “Espera”, na minha cabeça, toda vez que espero.

Vejo o poder na mão, no gesto, no carinho de quem cuida. Mas reconheço a falta de quem não tem alguém que cuida. Será que ela que cuida, tem alguém que cuida dela? O quanto será preciso esperar para que seja perceptível que esperamos tempo demais para ter alguém que cuide de nós, enquanto cuidamos dos nossos.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Grandes mulheres guerreiras, poderosas, que Deus as abençoou com muita coragem, paciência e com muito amor. Gosto muito dos seus textos, são relatos verdadeiros que descrevem a rotina de mães muito especiais, é assim que as vejo mães especiais, mães superpoderosas, deixo aqui o meu abraço, carinho e admiração por todas.

    Rosimere Lopes

  2. Pois é ! . O desafio de ser mãe , sabendo que ñ é uma mulher maravilha que tem super poderes e salva o mundo.
    Perceber, sem culpa, que se cansa sim , que precisa sim de espaço pra você mesma , e que por isso não deixa de ser uma mãe maravilhosa e uma pessoa cheia de anseios e necessidades. Beijos e abraços apertados.

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