Um bebê morreu na praia, longe do pai, longe de sua mãe, longe de casa. Poderia ser Ciro, poderia ser João, mas era Alan Kurdi e era sírio. Não importa o nome, ele deveria estar dormindo protegido em um abraço. Noutro canto do mundo jazem 40 crianças mortas em um ônibus. Foram destroçadas por um ataque aéreo no lêmen em 2018. No mesmo ano, 15 crianças foram vítimas de balas perdidas no Rio de Janeiro. Foram condenadas por atos atribuídos aos seus pais. Elas pagam com dor, com suas vidas, as dívidas que não são suas.
Aquilo foi condenável, mas na terra de Vera Cruz comemoraram quando Lula teve câncer, quando Dilma adoeceu, a morte de Dona Marisa, quando Temer foi internado, quando Jair Bolsonaro foi esfaqueado. Pois o viver agora é virtual e a realidade ficou distante, a dor é distante, a morte é digital e o choro gravado é postado. A dor se tornou ato cénico, a internet nos tirou da vida das ruas e amplificou a voz e a imagem dos que sempre gritaram sem pensar. Os que ganhavam no berro, hoje ganham no post. A dor real do próximo não nos afeta, só importa a sua dor, sua satisfação. Percebam que eles são uma minoria a procura de seguidores. Sem coragem para pensar e sem tempo para seguir outros caminhos.
Feito Física, todo ato na vida tem uma reação de igual potência em sentido contrário. Caso nossas sementes sejam de vida, não colheremos escuridão. Nem todas as sementes lançadas florescerão, mas não darão frutos diferentes. Usar pesos diferentes para ações correlatas é plantar sementes variadas e esperar frutos iguais. Isso é agir desonestamente com a Lógica.
Utilizamos regras e métricas que possam favorecer nosso ponto de vista. Há os que são contra a pena de morte para condenados, mas defendem o aborto em caso de estupro; pedem a morte de uma criança devido ao crime do pai. Há quem peça a prisão de um, mas defenda outro que cometeu crime igual ou pior. Guardemos uma mesma medida, pois tudo tem uma finalidade, um propósito.
Pensem! Onde Pelé estivesse o assunto seria futebol, com Roberto Carlos será música, com Bonner o jornalismo e o JN serão o foco. Onde Lula, FHC, João Doria, estiverem o assunto não será origami. Pode parecer cruel, mas todo velório ligado a políticos, será um ato político, queiram ou não. Onde estiver Lula será líder, pois não há outro exercendo a função. Se o posto não é ocupado, alguém sempre é nomeado pelas circunstâncias à própria revelia.
A morte do neto Arthur, de Luiz Inácio e a reação de parte da nossa sociedade, mostra o quanto desviamos do caminho. Sua missão, daquele pequeno cavaleiro, foi maior do que a de seu pai, de sua mãe, de seu avô. Cristo já disse: o que fizer com um desses pequeninos, a mim estará fazendo.
Junto com as crianças do ônibus e as do Rio de Janeiro, acima das montanhas lá do céu, lá vem o príncipe da Távola Redonda empunhando sua espada de madeira, desafiando sonhos e as nuvens do céu. Seu poder vem da inocência, do desapego, vem de Deus, ele cumpriu sua missão.



