Só percebemos a importância da água quando ela acaba. Somente valorizamos pais, amigos e nossos amores quando eles vão embora. Quando já é tarde demais para um resgate, para um recomeço. Com o direito de imprensa e as prerrogativas do profissional, é a mesma coisa. Essa tal liberdade é algo muito abstrato, muito longe de nosso dia a dia, incompreensível para quem mais dela precisa. Que falta faz você não ter o direito de ir e vir, de falar o que você pensa? O direito à informação é realmente importante? Qual vantagem eu levo com isso? Isso vai trazer o pão para a minha mesa, cerveja para o meu copo? É claro que não, poderá pensar você, pequeno gafanhoto.
Ser jornalista é mais do que falar, é produzir documentos para serem lidos no futuro. É ser referência para alguém lá no distante amanhã. Jornalista é o historiador do presente, do agora é o musgo colado nas rochas enfrentando a fúria das águas, o calor do sol e a secura dos dias mais quentes. É um trabalhador comum, um servidor braçal.
É comum não sermos bem vindos, justamente onde nosso serviço é mais necessário. Com o tempo isso não nos incomoda mais. Nem damos importância aos olhares carregados com raiva e desprezo. Mesmo em pleno século 21, nem todos compreendem e aceitam com naturalidade nossa impertinente e atrevida presença. Temos a mania de falar coisas nem sempre simpáticas aos donos da verdade. A verdade nem sempre é um prato saboroso para alguns e esperado com ansiedade.
Em 2023, 140 jornalistas foram mortos ao redor do mundo por irem, sem convites, onde seus serviços eram muito importantes. No Oriente Médio morreram 90 profissionais da mídia. Doidos no meio de bombas, caças, tanques de milhões de dólares cada um, revelando ao mundo a face de perigosos bebês, de idosos e de trabalhadores fortemente armados com mortíferas pedras e pedaços de paus. Na América Latina foram 20 malucos delatando a violência e a pobreza assassina, encontrando as balas perdidas em corpos de favelados. Ásia outros 12. Na África 11. Europa com quatro e América do Norte com três jornalistas mortos. Nossa missão nem sempre é cobrir festas e eventos elegantes. Por natureza somos mais espinhos do que flores, somos proclamadores do apocalipse de muita gente que se sente o Rei da Cocada Preta.
Dentre tantos colegas mortos, destaco Wladmir Herzog nos distantes anos 70 em um porão de um departamento governamental. E Tim Lopes, no meio de uma favela carioca. São sujeitos que ousaram ir onde não foram chamados, onde não foram convidados. Eles faziam o necessário trabalho de garimpar a verdade em locais perigosos, em corredeiras de rios caudalosos, onde a maioria não se atrevia a ir. Eles trazem os fatos das fontes primárias, feito água pura retirada do olho d´água, tão importante para clarear nossa realidade. No final das contas, somos apenas lavadores de janela, para que todos possam enxergar o horizonte mais claramente.



