Vez por outra e eu me pego olhando-a de longe. Como posso ainda te amar tanto? Paro de ler um instante e fixo meus olhos em seus lábios. Eles parecem cantarolar. Seu olhar dá ares de perdido, em algum sonho distante além do vidro da janela de nossa sala. Vez por outra ela solta um leve sorriso, um suspiro. De repente ela sente que a estou olhando, então de longe procura meu olhar, eu a encaro como que tentando ler seus pensamentos. Ela franze a testa, sorri e volta a mexer na xícara de café. A colher emite um leve tilintar hipnótico.
Ela tem algo que me faz bem, alguma coisa que me seduz e que me vicia. Não sei bem o que é. Perco a concentração e nem sei mais o que estava lendo. Será que ela me ama tanto quanto eu a amo? Talvez ela não saiba quanto a quero. Ah, se um dia ela for, não terei mais motivos para aqui ficar. Levará em suas malas meu coração, minha vida meus desejos, meus horizontes. Ficara apenas um reflexo de mim, onde ela estiver lá eu estarei feito um fantasma rondando seus passos.
Sim, admito! Sou incompleto sem ela, soube disso quando a conheci e tenho certeza disso toda vez que o medo de perdê-la me assola feito vento frio. Como pode o ser viver incompleto quando um dia já esteve por inteiro? Como ser verão sem calor? ser inverno sem o frio? Como ser primavera sem flores, como eu ser eu sem você? Seria um planeta sem vida.
Abaixo os olhos e finjo ler. Sinto que ela me olha de longe tentando ler meus pensamentos. O que será que tenta desvendar? E ela sabe mais de mim do que eu mesmo! Sinto vontade de levantar os olhos, mas espero um instante mais. Ouço o suave som de seus passos no piso de nossa casa vindo ao meu encontro. seu andar me leva a sonhar, a me perder, só me encontrando no emaranhado de suas dúvidas, de suas certezas, de suas lembranças e de seus abraços que quase me sufocam de um doce querer.
Respiro fundo e tento desenhar sua silhueta em minha mente. Seguro a vontade de me levantar e abraçá-la com força! Ela suavemente me abraça, encostando os seus seios em minhas costas. Seu perfume me invade. Ela morde minha orelha e baixinho diz que me ama. Sinto o cheiro do seu corpo, o cheiro de café vindo do seu hálito, nesse momento sei que sou feliz.
Caso o destino fosse diabólico, carregado de vil peçonha e nossos caminhos nunca cruzassem o que teria sido de mim, por onde eu estaria vagando agora caso os meus passos não tivessem encontrados os dela, por quais cantos deste mundo eu dormiria, se dormisse teria sonhos? Ela continua me abraçando e eu me recuso abrir os olhos. Seu cheiro, seu corpo me invade a alma. Quero que esse instante dure para sempre. Não tento mais ler seus pensamentos. Sinto o corpo flutuar em um leve torpor, como se ela feito um pássaro alçasse voo me levando consigo para seu ninho. para que na árvore mais alta, da floresta mais densa, para que sejamos felizes para sempre.



