Mataram mais um preto, assassinaram outro homem de cor. Então o dia ficou mais macambúzio, cinza feito a cor da pele da maioria dessa gente que sonha em preto e branco. Desse povo de pouca educação, de sorte escassa, de rumo incerto, de morte precoce. Ah, mas não pense que esse preto era um santo, esse negão tinha tantos defeitos, não era gente boa, era tão violento quantos que o mataram. Tinha como destino, já pré-definido, a vala rasa, a comida rala e por companheiro, um mundo que se cala. Foi uma comoção mundial que durou apenas uma semana. A lembrança do cadáver algemado, esticado na sarjeta ladeado por dois oficiais militares, foi ofuscado, esquecido por outro evento mais interessante do que a rotineira morte de mais um preto. Enquanto o preto perdia a cor pela falta de ar, pela falta de respeito, pelo excesso de tapas e socos, a vergonha e a humilhação doíam mais do que as feridas expostas.
Foi uma morte em legítima defesa da vida, afirmou a dupla fardada diante do delegado. Esses algozes não eram de outro mundo, de outro bairro ou de outra classe social. Eram iguais em suas funções de sustentáculos de um mundo que nunca porão seus olhos. Feitos formigas, uns eram soldados, o outro era um operário do formigueiro a serviço de um povo que nunca conhecerão. Essa gente que nunca aparece nas tvs, nas redes sociais, nunca os vemos nas ruas, são os chefes dos que comandam os manipuladores dos cordões das marionetes que mandam e batem em nós.
Dias depois, a central ordenou que a mesma viatura rodasse por algumas dezenas de quilômetros por uma rodovia estadual. A certa altura saíram da via e se depararam com enorme, mas discreta portaria. Ambos já haviam passado por ali e nunca a tinham percebido. Estranharam que haviam pelo menos quatro seguranças, mas todos do lado de dentro dos portões, todos de paletó preto, óculos escuros, imóveis feito estátuas. Uma estrada os levou uma enorme fileira de suntuosas casas que não podiam ser vistas da rodovia, devido a inúmeras e altas árvores. Ruas largas e sem carros, terrenos gigantes e sem muros. Ao virar à direita, perceberam um aeroporto com pelo menos uma dúzia de aeronaves de porte médio, a maioria eram jatinhos executivos, alguns helicópteros.
Um pouco mais à frente, três ou quatro pessoas tentavam conversar com vizinho, que estava visivelmente exaltado. Devido a raiva, a cor da pele do cidadão variava do rosa ao vermelho intenso. O homem não permitia que ninguém se aproximasse da magnífica casa em estilo norte-americano. Ele dono de um temperamento explosivo, seja nos negócios, seja em uma vida privada. João Milionário Branco Tedesco havia discutido com a esposa pela enésima vez e a agrediu, mas ela sempre reagia à altura e desta vez não foi diferente. Na troca de tapas um soco derrubou a jovem senhora Branca Alves Branco Tedesco que bateu a cabeça em uma quina de um imóvel da riquíssima sala. Morreu na hora.
A dupla Soldado Oliveira e Cabo Silva, veteranos da polícia militar, cucarachas que se acham brancos e agem de forma racista contra seus iguais mais amorenados se sentiram pretos diante da brancura da pele daquele povo. Todos que viviam por ali eram branquíssimos, cabelos muito lisos e bem cortados. Muitos de olhos claros, bonitas roupas. Então a dupla percebeu suas fardas, gastas, velhas, puídas. O colete à Prova de Balas tinha algumas partes descosturadas, algumas manchas. Até tentaram se impor. mas foram humilhados. Ao fazer menção em tocar em sua arma, seguranças se colocaram ao redor dos policiais em defesa do senhor que não poupavam injúrias e palavrões. Quem foi esse idiota que chamou essa corja? Nem pensa em pisar na minha calçada, dupla de ignorantes e maltrapilhos. Vocês fedem!
Lá dentro, jazia o corpo da esposa morta. Os filhos do casal estavam em férias na Escócia com os avós paternos. No palácio do governo estadual, o governador recebe uma ligação. Do outro lado da linha um secretário de segurança atônito: um tal João milionário Branco Tedesco havia assassinado a esposa e os policiais não conseguiam entrar no local. Ninguém queria expedir uma ordem judicial para dupla de policiais entrarem na mansão. Cinco minutos após saber do triste acidente, o governador parte em seu helicóptero para o condomínio fechado, localizado há mais ou menos 20 minutos de voo da capital. Ele estava extasiado, finalmente conheceria o tal João Branco, um dos homens mais ricos e menos acessíveis do mundo. Logo ao alçar voo, recebe a ligação do presidente da república, pedindo apoio total ao nobre empresário neste triste momento.
A dupla de PMs ainda tentou entrar na casa, mas advogados brotavam de todos os lados. Haviam pelo menos oito seguranças bem armados, tipo agente secreto para defender o rico empresário, que não parava de xingar e ofender os pobres agentes da lei. Já cansado de ouvir tantas ofensas, o cabo Silva partiu para ensinar aquele senhor que policiais devem ser respeitados, o pobre soldado não deu dois passos, pelo menos três seguranças caíram literalmente em cima dele. O soldado Oliveira nem viu o que o acertou. Minutos depois acordou de bruços com a cabeça doendo e com o rosto todo ralado, ao seu lado estava também algemado o cabo silva sangrando pelo nariz com três dentes quebrados. Ao chegar, o governador com coração quase saindo pela boca, devida a ansiedade de conhecer, um sujeito que derramava dinheiro em campanhas políticas presidenciais. Ele foi informado que seus policiais foram bem violentos e os seguranças do condomínio tiveram que usar a força, moderada, para contê-los, mas estavam bem. O governador pediu desculpas pela ação desastrada de seus comandados e abriu os braços e um grande sorriso, rumou em direção ao pobre enlutado empresário.
Após ouvir atenciosamente a versão sobre o incidente, o governador concordou com o famoso médico da família que prescreveu que o senhor Milionário deveria ser internado para se recuperar daquela fatalidade em uma clínica lá na Suíça. Durante todo o tempo os militares foram quase esquecidos permanecendo algemados, sangrando, rostos inchados, colocados ao preto e quente asfalto. Uma sensação sufocante da humilhação provocada pelo excesso de tapas e socos da dupla suburbana. Na delegacia o chefe de plantão foi informado pelo assessor do governador que os policiais se excederam na ação, mas a vítima não faria nenhuma queixa oficial e o caso foi arquivado.



