Popularização das apostas online ampliou preocupação com compulsão, endividamento e impactos nas relações familiares; especialistas alertam para os riscos da dependência
A expansão das plataformas de apostas online transformou as chamadas bets em parte do cotidiano de milhões de brasileiros. O acesso fácil pelo celular, a publicidade constante e a promessa de ganhos rápidos, porém, vieram acompanhados de um problema crescente: pessoas que perderam o controle sobre o jogo, acumularam dívidas e passaram a enfrentar consequências para a saúde mental e para a vida familiar.
Somente em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões nas bets, considerando a diferença entre o dinheiro apostado e os valores devolvidos em prêmios. Entre outubro de 2024 e março de 2026, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.
Por trás dos números estão histórias de pessoas que viram as apostas deixarem de ser entretenimento para se transformar em dependência. Há relatos de perda de patrimônio, empréstimos, dívidas com familiares e até agiotas, além de consequências profissionais e rompimentos familiares.
Promessa de dinheiro rápido
Um dos fatores apontados por especialistas para explicar o avanço das apostas é a expectativa de obter dinheiro rapidamente. Em meio a dificuldades financeiras, parte dos jogadores passa a enxergar as plataformas como uma possibilidade de complementar a renda.
Pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ), realizada com moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mostrou que 33% dos entrevistados que já haviam apostado disseram que a possibilidade de ganhar dinheiro rápido estava entre as motivações. Outros 25,4% enxergavam as apostas como uma oportunidade de renda extra.
O problema aparece quando as perdas levam a novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro. Esse comportamento pode formar um ciclo no qual o jogador aumenta os valores, compromete recursos destinados às despesas do cotidiano e encontra cada vez mais dificuldade para interromper o hábito.
Na mesma pesquisa, 22,3% dos apostadores afirmaram ter dificuldade para parar, enquanto 29,1% disseram já ter sentido culpa por apostar. Entre os participantes que já fizeram apostas, 5,1% relataram ter contraído dívidas em razão do jogo.
Saúde mental também preocupa
As consequências não ficam restritas ao bolso. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo e pode estar relacionado a problemas como ansiedade, alterações de humor, isolamento, conflitos familiares e dificuldades no trabalho.



