Sábado, Março 7, 2026
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Mãe solo, deste solo.

Por Jéssica Silva | Instagram @eujessicasillva

Daqui enxergo um horizonte lindo, mas antes atravesso este solo. E que solo pedregoso tenho enfrentado ultimamente. Quem nunca preparou a terra para que ela pudesse receber o que oferecemos e depois produzisse o que ali plantamos? Sempre questionamos se regamos demais, ou de menos, ou se me dediquei o suficiente para que seja um solo produtivo. Escolho minunciosamente o que ofereço a ele. Sejam flores, frutos ou cuidado. O cuidado de poder fazer um pouco hoje, para ter muito amanhã. Me vejo assim, entregando ao solo o que necessitar de mim.

Sou mãe solo e cuido deste solo, e que parece ter produzido pouco, mas que tem florido muito. Sou mãe solo de um solo lindo. Ser mãe solo vai muito além do que dizem. A responsabilidade de deixar florir e dar o suporte, de estar disponível e sempre proteger são regras básicas para que seja possível sobreviver num mundo de solos não cuidados e espinhosos. Cuido do meu solo para que ele possa contaminar outros, e que seja da melhor forma e de incontáveis maneiras. Ele está pronto para receber o melhor de mim. Cuido, rego, encho de cantigas e estórias das mais lindas que já ouvi falar. Enfrento tempestades e ventanias, mas com cuidado para que o solo que zelo não seja alagado e destruído.

Vejo muito disso nas minhas lembranças da época de criança. Entendo que passei por tempestades, que até então eu enxerguei como garoa, e que inundaram quem era o meu eixo, e que fez de tudo para que eu não me molhasse. Quando me tornei solo, me vi diante de tempestades assustadoras, e que a cada uma delas achei que não conseguiria enfrentar, mas ao passar, vi que é possível enxergar um céu lindo se abrindo. Quando somos crianças, somos protegidos, vemos o nosso mundo como perfeito. Fazíamos parte de solos cultivados com cuidado de quem não teve a regalia de ver uma tempestade passar.

E quantos furações muitos que vieram antes de nós enfrentaram para que não precisássemos enfrentar a enchente? Quando o nosso chão que sustenta a família se vai, cada rebento já construiu o seu próprio ponto de equilíbrio, e nesse momento, aquele que um dia procurava o seu eixo, se torna o marco zero de uma família que se inicia. Sou o eixo da minha. Ela e eu. Sou mãe solo de uma autista. Embora eu possa parecer com tudo sob controle, a verdade é que estou em solo desconhecido, sei o que faço, como faço, e faço de tudo, mas sempre com a incerteza do que virá, mas torcendo para que seja um solo fértil. A ansiedade de ver florir, produzir se tornam sentimentos insuportáveis, e até descontrolados com a pressa do “ver acontecer”. Ser mãe solo me tornou mais forte, e me arrisco a dizer que até inquebrável, ou quase. Me sinto um solo fértil, mesmo no caos.

Que terra boa vejo daqui, não quero terra à toa, que a chuva escorra e faça brotar o que há de melhor que plantei aqui. Viver uma vida tão regada de temporais intermináveis não quer dizer que eu não possa aproveitar a chuva e chorar debaixo dela. Aprendi a ter fé no solo que cuido. Sei que muito vem de mim, mas sei que a confiança que sinto, também passo para ela, o solo que cuido. Assim como os que vieram antes de nós, que cuidaram e zelaram por solos que nos fizeram florescer, uso do que foi feito de mim, um solo melhor.

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