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A fraude das uvas verdes

Era uma vez uma raposa que viu uvas com aspecto bem saborosos e agradáveis na beira do caminho. No entanto, elas estavam bem altas e não era possível alcançá-las. Então mentiu para si mesma: Ora! Estão verdes e não estou com fome; isso não me interessa, essas uvas não prestam.
Isso chama-se dissonância cognitiva. Segundo o professor Luli Radfahrer, da escola de comunicação e artes da USP, o ser humano necessita se livrar das contradições que se encontra em seu dia a dia, caso isso seja difícil ou mesmo impossível de se livrar desse desconforto em sua mente ele mentirá deliberadamente, negando a própria realidade existente ao seu redor, e criará uma nova crença uma nova visão sobre a situação que não quer admitir, fara isso ainda que tenha que dizer que as uvas estão verdes. Mesmo que o mundo diga que elas estão bem maduras.
Quando Jair Bolsonaro era candidato a presidente ele gritou aos quatro ventos que o modelo eleitoral no Brasil não era confiável e que se perdesse a eleição, seria a prova final da fraude existentes no Brasil. Pois bem, ele ganhou e mesmo assim afirmou por diversas vezes que houve fraude nas eleições brasileiras. Isso foi negar a realidade mesmo que era lhe era favorável. É como deixar uma desculpa a postos em caso de fracasso.
A pesquisadora Ana Freud classifica a negação como um mecanismo das mentes imaturas, pois entra em conflito com a capacidade de aprender a lidar com o real. No dia sete de outubro de 2018, Jair Bolsonaro recebia em primeiro turno 46 por cento dos votos válidos e assim seguia como favorito para disputar as eleições contra Fernando Haddad do PT. O 2º turno das eleições presidenciais, mas Bolsonaro insistia no discurso sobre as fraudes, pois em seu entendimento. ele deveria ter vencido no primeiro turno.
Já eleito, dois anos após, em 2020, Bolsonaro afirmou novamente ter provas sobre as fraudes nas urnas eletrônicas e que iria mostrá-las; nada mostrou. Agora algo semelhante acontece nas distantes terras do tio Sam. O imponente presidente americano Donald Trump traz a tese da fraude desde sempre. Mesmo se elegendo em 2016, Trump aventou a possibilidade de interferência digital russa na vontade Popular americana, mas em seu encontro o presidente da Rússia Wladmir Putin, Donald Trump, baixou a bola e afirmou que derrotou a Democrata Hillary Clinton em uma campanha eleitoral limpa. Afirmou, ainda, que seria uma vergonha haver a menor dúvida sobre o assunto.
Agora em 2020, diante da derrota na escolha dos delegados do colégio eleitoral americano, seu discurso sobre a fraude retorna ainda mais obstinado, incisivo e obsessivo. Essa dissonância cognitiva, essa incapacidade de aceitar a realidade nua, crua é bem comum nas redes sociais. Pois ali o internauta tenta criar um mundo todo seu controlado, em que ele tenta ser ou demonstrar ser alguém que não é na vida real. Assim muito do ódio disseminado nas redes, é devido ao fracasso de alguns em admitir os próprios erros e julgamentos apressados.
Admitir que não é capaz de alcançar as uvas, mas elas sim estão maduras, desejáveis. Admitir que perdeu, que o outro pode ter razão, admitir que somos falíveis é crescer, evoluir como indivíduo e que nem por isso será menor ou menos capacitado de quem tem a razão no momento. Admitir que sua fé pode estar errada, que seu herói era de barro, que seu candidato não está bem nas pesquisas, que se enganou, que seu pastor, padre, mãe-de-santo, rabino, sheik, sempre mentiram para você, admitir que seu idolatrado senhor e ídolo era uma farsa; por mais que doa, isto é libertador! E olha negar a realidade não é privilegio de nós meros mortais. Tem gente bem poderosa que nem tenta pegar as uvas por medo de fracassar. Já eu prefiro arriscar. Afinal, as uvas estão doces, maduras e saborosas.

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