Ao acordar vi essa figura à minha cama. Pela aparência deveria ter pouco mais de trinta anos, pareceu-me ter sofrido muito na vida. Tinha um ar de cansaço no rosto e sua barba há muito não via lâmina; se é que algum dia viu! Seus cabelos, compridos e crespos, estavam em desalinho, pareciam ter enfrentado uma tempestade. Suas roupas não estavam sujas, pelo contrário, estavam limpas, mas eram bem velhas, davam a impressão que iriam rasgar ao primeiro toque; as minhas, eram o oposto; novas e alvas como um dia iluminado.
— O que faz aqui?… —Não sabe falar?…
Deve ser algum louco, mas como entrou aqui? A propósito, onde é aqui? Parece um hospital. Quem será que me trouxe? Só me lembro do início da festa de ontem; do final…
Devo ter passado mal, mas a turma não tinha dinheiro para uma internação (se tivessem usariam para outra coisa; bom, eu usaria) e meus pais, hein? Há muito não sabem de mim, e estão longe, muito longe e assim não poderiam me socorrer. — Sinto falta deles.
—E você? Porque ainda está aí? —É pastor, padre, Rabino? —Você tem cara de Rabino.
Olha, se veio me ajudar, vou logo dizendo: Não preciso de sua ajuda. Estou muito bem,
aliás há muito tempo não me sentia assim tão bem.
Esse cara tem um jeito estranho. Olha-me como soubesse de tudo.
— Vou te dizer uma coisa: você não sabe nada e não pode me ajudar. Como você pode notar estou em um bom hospital… —Porque sorri com condescendência? Se acha superior?
Em contraste com o rosto cansado, seus olhos brilhavam como alguém que acaba de sair de uma luta com vitória, parecia feliz.
Como será que está meus irmãos? Apesar das brigas gosto deles.
—Você é paciente ou trabalha aqui?
O ar é muito agradável aqui, não tem cheiro de hospital, é bem limpo e existe um silêncio
impressionante. Sinto-me em paz.
E meu Pai? Será que já me perdoou? Aprontei tanto.
Há quanto tempo estou aqui? Será que a festa foi ontem ou há seis meses? Eu não sei, perdi a noção do tempo. – Devo estar pensando bobagens, é lógico que a festa foi ontem.
-Já sei! Descobri o seu segredo, você é um psicólogo e veio me ajudar a sair das drogas, não é isso?
— Pois pode ficar tranquilo, hoje de manhã antes, de você chegar estive pensando: vou parar com as drogas, voltar para minha família, fazer as pazes com meus irmãos, beijar minha mãe. Meu Deus há quanto tempo não faço isso), trabalhar, vou pedir perdão para meu pai e nunca mais vou fazer minha mãe sofrer. Estranho sinto-me tão leve depois de dizer isso.
Sabe amigo, dizer isso me faz bem, deveria ter parado a mais tempo; não sinto nem aquela síndrome de abstinência que sempre me fazia voltar as drogas. Agora eu sei! A vida é muito importante para ser desperdiçada com drogas; agora eu quero viver.
E, você acertou:
— Ah sabe falar!!!
– Sim eu sei falar. Como eu ia lhe dizendo: sou psicólogo, médico também, sou um pouco de tudo, trato do corpo e do espírito há muito, muito tempo e se você quiser podemos ser amigos.
Eu vim trazer boas notícias! Você não é mais dependente de drogas, logo, logo dois amigos da sua turma virão lhe fazer companhia. Seu pai e seus irmãos estão bem, sempre conversamos, somos amigos sabia? Sua mãe sabe que você está aqui comigo, hoje ainda conversamos e ela pediu-me para cuidar muito bem de você. Prometi fazer de tudo para lhe ajudar nesta nova fase. Ah!! Seu pai pediu-me para te dizer que te perdoou e que te ama muito.
E então? podemos ser amigos?… Chamam-me Jesus Cristo e é um prazer recebê-lo em minha casa.
— E seu nome meu jovem, qual é?



