Somos responsáveis pelo que plantamos, pelo que cultivamos, pelos sonhos que acalentamos no coração dos tristes. Nesses tempos de eleição, o povo recebe muitas visitas, ouve promessas de um mundo melhor. O povo crê, ele necessita dos sonhos para enfrentar as dores cotidianas. As promessas, por vezes, são carinhos na alma dessa gente tão necessitada. Não tratem com desprezo os sonhos alheios, eles alimentam a alma e, sem ela, somos apenas máquinas. Somos responsáveis pelo que cativamos, frase do escritor Antoine de Saint-Exupéry. Ele sabia do que estava falando.
Já estive em diversas reuniões políticas durante minha carreira profissional e vi muitos olhinhos brilhando, acreditando nos sonhos propostos. Mas quais caminhos seguir para realizar tais sonhos, quais ferramentas usar, onde se encontram tais estradas? Meu Deus! Com técnica, com um bom treinamento, o orador vai capturando pouco a pouco a plateia tantas vezes enganada, por tantos outros espalhadores de sonhos. No entanto, e apesar de tantas outras experiências ruins, aquele povo se permite sonhar novamente, se permite acreditar que aquele rosário de promessas é possível realizar. No fundo do peito, terreno já tão árido, a semente dormente da esperança brota devagar. As frases são puro algodão-doce: são lindas, coloridas, adoçam a boca. Porém, desaparecem rápido, junto com aquele profeta tão bem vestido, de lindo e cativante sorriso, desaparecendo no final da estrada em seu belo e possante carro.
Na volta para casa, o coração está cheio de esperanças, a boca adocicada pelo discurso, que lhe pareceu coerente mesmo, possível. Seus olhos fixos no chão. Parte da rua sem pavimento e com muita poeira, o sol ardido do fim de outono e início de inverno, o ar quase sem umidade, seus olhos ardem. A rua íngreme, as casas precisando de nova pintura, outras nunca receberam reboco, acabamento. Nesta rua ainda há três casas feitas de madeira. Crianças com 7, 8 anos, descalças, brincam de futebol na rua. Calçadas com muitos papéis, sacolas plásticas velhas, embalagens de salgadinhos baratos deixem aquele lugar com ar de abandono. Um garoto passa de bicicleta fazendo acrobacias e a empinando como fazem os motoqueiros.
Chega à sua casa e entra pela porta da cozinha. A pia cheia de louça para lavar e a alma alimentada pelas promessas daquele senhor. Não, não se lembra mais do nome daquele sujeito! Lembra tão somente das promessas, das coisas boas prometidas. Nem precisava de tanto, se cumprisse a metade já seria o suficiente para ajeitar a sua vida. A conta da água está com o pagamento atrasado, a conta da luz deve chegar esta semana. E se ele lhe arrumasse um emprego? Nunca mais iria se preocupar com as contas, com as compras do mês, poderia ir ao shopping muitas vezes. Bem! Não custa sonhar! Vai que ele seja diferente de outros e resolva ajudar mesmo os mais carentes. Neste momento, sentiu novamente o sedutor gosto de algodão-doce dissolvendo em sua boca.



