A função principal, o essencial, a alma da arte é mexer, cutucar, incomodar ou emocionar. Caso ela não faça nada disso, ela não é arte, não atingiu sua meta primordial. Então, ela morre em si mesma. Aqui gostaria de falar sobre uma arte estranha e bem antiga: piadas e textos que incomodam, que ferem os que se ofendem sem antes atinar sobre o que ouviram. Houve um tempo que o escritor Nelson Rodrigues causava escândalo dizendo em praça pública o que a sociedade fazia escondido em seus lares e ocultava em seu íntimo. Acredite! Hoje têm muitos puritanos que ainda se escandalizam com seus textos. Ele pagou caro por dizer a verdade. “O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda! Frase de Nelson Rodrigues. Ele também escreveu que mulheres gostavam de apanhar. Aquilo não era sua opinião, era e ainda é o retrato de nossa sociedade.
Condenaram o humorista Léo Lins a mais de 8 anos de prisão em regime fechado por fazer piadas que incomodam. Ele diz absurdos que sacodem as mentes estagnadas no lodo do politicamente correto. Poucos percebem que a intenção nunca foi menosprezar, ofender, destruir. A liberdade é poder fazer até o que não queremos fazer, já dizia o pensador Immanuel Kant. Romper a rotina e os costumes é dolorido. Pensem: se todos concordam com algo, alguma coisa está errada. Escritores de filmes violentos estão propagando o genocídio? Os filmes Tropa de Elite e Cidade de Deus propagam discurso de ódio? A origem é a mesma: o texto? O artista retrata seu cotidiano, ele e sua obra são frutos de nossos dias.
O filósofo Michel Foucault já alertava sobre a arquitetura da sociedade para aumentar a docilidade e o adestramento dos indivíduos. A meta do Estado é vigiar e punir e somos utilizados como fiscais para que essa premissa seja executada. A liberdade de pensar e, principalmente, de instigar os indivíduos a pensarem, é um risco que pode fazer ruir todo o status quo. Parafraseando Foucault, a prisão não é apenas um local de reclusão, mas também uma ferramenta de controle social que tem como objetivo moldar comportamentos através da vigilância constante e da normalização do que antes seria considerado um absurdo.
A briga contra os humoristas é antiga. No tempo do presidente Getúlio Vargas, havia a dupla Alvarenga e Ranchinho e eles sofreram muito com a censura. Entre os anos 1930 e 1940 dormiram na cadeia diversas vezes e mesmo assim continuaram incomodando as mais altas autoridades. Nos anos de 1970, alguns programas de TV como Faça Humor, não Faça a Guerra, em 1978, em plena ditadura, Jô Soares estreava a peça Viva o Gordo e Abaixo o Regime. No meio da ditadura dos anos 70 a revista Casseta Popular colocava Papai Noel fumando maconha, os militares das três armas como camelôs e, no auge da campanha eleitoral de 1989, fez a capa da revista com o candidato a presidente Fernando Collor nu da cintura para baixo como caçador de marajá. Os humoristas são os soldados mais corajosos que desafiam os mais poderosos que gritam para assustar e impor sua censura. Agora no século 21 a piada insiste em machucar o coração de quem luta pela censura e não por um mundo que se enxergue. O mais triste é saber que estão rindo de nós há séculos e não percebemos, pois estamos brigando entre nós!



