Pacientes com alopecia areata contam trajetória para reaver autoestima

Doença autoimune pode provocar a perda parcial ou total dos cabelos e de outros pelos do corpo; além do acompanhamento médico, pacientes destacam a importância do apoio psicológico e da aceitação

Conviver com a queda repentina dos cabelos pode representar um desafio que vai muito além da aparência. Pessoas diagnosticadas com alopecia areata relatam trajetórias marcadas pela busca por respostas, diferentes tratamentos e, principalmente, pela reconstrução da autoestima e da relação com a própria imagem.

A alopecia areata é uma doença autoimune na qual o próprio organismo ataca os folículos pilosos, provocando a queda dos fios. Segundo informações divulgadas pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a condição atinge cerca de 2% da população mundial e pode aparecer em qualquer fase da vida.

A manifestação da doença varia de pessoa para pessoa. Em alguns casos, surgem pequenas áreas sem cabelo no couro cabeludo. Em outros, ocorre a perda completa dos fios da cabeça, quadro conhecido como alopecia areata total. Há ainda a forma universal, na qual o paciente pode perder também sobrancelhas, cílios e outros pelos do corpo. A evolução é considerada imprevisível e podem ocorrer períodos de crescimento dos fios seguidos por novos episódios de queda.

Impactos que vão além da queda de cabelo

Entre as histórias de pacientes está a da revisora de livros Beatriz Santos, que convive com a doença desde 2008. A primeira falha foi descoberta quando ela ainda era adolescente e foi a um salão de beleza para fazer um penteado. Como tinha cabelos cacheados e volumosos, não havia percebido uma área de aproximadamente oito centímetros sem fios próxima à nuca.

A partir daquele momento, começou uma longa busca por diagnóstico e tratamento. Beatriz passou pelo uso de corticoides e por aplicações diretamente no couro cabeludo. Anos depois, a condição evoluiu e, em 2012, ela perdeu os cabelos e os demais pelos do corpo, passando a conviver com a alopecia areata universal.

Com o passar do tempo, a relação com a própria imagem também mudou. Beatriz chegou a utilizar peruca, mas não se adaptou. A terapia e o desenvolvimento de outros interesses contribuíram para que a doença deixasse de ocupar o centro de sua vida. Atualmente, ela mantém nas redes sociais um espaço dedicado a falar sobre alopecia e compartilhar experiências.

Outra trajetória é a de Juliana Fernandes, hoje com 45 anos. O primeiro episódio aconteceu aos 10, quando sua mãe percebeu uma falha enquanto penteava seus cabelos. Durante anos, os fios voltavam a crescer com os tratamentos, até que os medicamentos deixaram de apresentar os resultados esperados. Juliana convive com a forma universal da doença há mais de duas décadas.

Após anos tentando diferentes alternativas, ela encontrou na terapia e no contato com outras pessoas com alopecia ferramentas importantes para reconstruir sua autoestima. Hoje, Juliana também auxilia no acolhimento de novos integrantes do Alopecia Areata Grupo de Apoio (AAGAP), iniciativa que reúne pacientes e familiares em São Paulo.

Apoio psicológico e combate ao preconceito

Embora situações intensas de estresse possam estar associadas ao desencadeamento de episódios em algumas pessoas, especialistas alertam que a alopecia areata não deve ser tratada simplesmente como uma doença emocional. A dermatologista Enilde Borges Costa ressalta que atribuir a condição exclusivamente ao estado psicológico pode gerar culpa no próprio paciente.

Por outro lado, o suporte emocional pode ter papel importante para lidar com as consequências da doença. O AAGAP promove encontros e mantém um espaço de troca de informações e experiências, permitindo que pessoas que enfrentam situações semelhantes encontrem acolhimento.

Esse cuidado ganha ainda mais importância quando a doença surge na infância. É o caso de Levi, de 5 anos, diagnosticado em maio de 2025. A condição evoluiu para alopecia areata universal e a família passou a trabalhar não apenas o acompanhamento dermatológico, mas também o fortalecimento emocional da criança.

A mãe, Paloma Monteiro da Lava, transformou a experiência familiar em uma iniciativa de conscientização. Por meio da campanha “Eu sou mais que aparência”, ela aborda a alopecia nas redes sociais e busca combater a desinformação e o preconceito, além de aproximar famílias que enfrentam situações semelhantes.

A experiência dessas famílias mostra que a trajetória de quem vive com alopecia areata não se resume à tentativa de recuperar os cabelos. Para muitos pacientes, o processo envolve compreender a doença, encontrar acompanhamento adequado, enfrentar olhares e comentários e, principalmente, perceber que a identidade e a autoestima não precisam estar condicionadas à presença ou à ausência dos fios.

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